Ergonomia: Como prevenir doenças na odontologia

Ergonomia: Como prevenir doenças na odontologia

16/09/2022 - Por: Samara Sampaio

A ergonomia na Odontologia é essencial para que o profissional mantenha a boa saúde e evite o desenvolvimento de doenças sérias. Pesquisas apontam que cerca de 85% dos profissionais já se queixaram de algum tipo de dor nas regiões que são mais exigidas durante o trabalho.

Mas situação pode ser resolvida com a informação certa. Neste texto, você vai saber as mudanças que precisa fazer para trabalhar de forma mais saudável e como preparar seu consultório de acordo com as técnicas da ergonomia odontológica. Confira.

O que é ergonomia na Odontologia?

A ergonomia na Odontologia é um estudo que busca entender as relações físicas do profissional com os objetos do seu trabalho, como por exemplo uma cadeira. Dessa forma, é possível propor soluções e melhorias para que a saúde do dentista não seja desgastada por movimentos repetitivos e má postura.

Não é incomum que dentistas se queixem de dores nas costas, nos membros superiores e estresse. A maioria desses problemas pode estar relacionado aos equipamentos de trabalho e à forma como o profissional se movimenta.

A ergonomia pode tornar essa relação mais harmoniosa, seja por meio de objetos que garantam um maior conforto e a postura correta, seja pela educação do próprio profissional, ensinando a ele o que não deve ser feito durante a jornada de trabalho.

Qual a importância da ergonomia na Odontologia?

A ergonomia na Odontologia é importante para preservar a saúde do profissional por meio da melhoria de seu ambiente de trabalho.

Imagine um dentista que trabalha várias horas por dia sentado em uma cadeira desconfortável e debruçando-se muito sobre o paciente para fazer os procedimentos. Além disso, suas ferramentas de trabalho estão desorganizadas, fazendo com que ele gaste muito tempo e tenha que se virar a todo momento para encontrar algum item.

A longo prazo, essa situação pode causar diversos problemas de saúde. Por isso, a ergonomia na Odontologia pode ajudar esse profissional a se relacionar melhor com o seu local de trabalho, o que resulta em mais eficiência e qualidade de vida.

Quais são os objetivos da ergonomia na odontologia?

O principal objetivo da ergonomia na odontologia é diminuir os efeitos negativos, físicos e mentais, que um ambiente de trabalho sem os devidos cuidados pode causar. Nesse sentido, ela visa produzir um ambiente mais seguro, saudável e confortável.

Também é possível dizer que o aumento da produtividade é um dos objetivos da ergonomia. Assim, o profissional consegue fazer mais em menos tempo, aumentando seus rendimentos e até mesmo o seu tempo livre.

Quais são os riscos ergonômicos para um dentista?

ergonomia na odontologia
imagem: Freepik

O principal risco ergonômico ao qual um dentista está sujeito é a síndrome de LER/DORT. Essa sigla tem o seguinte significado:

  • LER: Lesões por esforços repetitivos;
  • DORT: Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho.

Ou seja, são lesões e doenças decorrentes da forma em que trabalhamos e dos equipamentos que usamos em que estão enquadrados os desgastes do sistema musculoesquelético.

Como é possível imaginar, durante a jornada de trabalho, um dentista, caso não aplique as técnicas corretas de ergonomia, estará sujeito a diversos desconfortos por esforços repetitivos, velocidade de movimentos, posturas incorretas e uso de força excessiva.

Isso pode resultar em dores e doenças em diversas regiões do corpo:

  • Cervical;
  • Pescoço;
  • Lombar;
  • Dorsal;
  • Ombros;
  • Bacia.

Doenças posturais relacionadas à Odontologia

Os riscos aos quais os dentistas estão expostos ao não aderirem à ergonomia na Odontologia são gigantescos. O problema piora pelo fato de muitos deles não estarem cientes dos perigos.

Muitas vezes, como os sintomas não são tão graves em um primeiro momento, as pessoas acabam ignorando e persistindo em hábitos ruins. Mas, a longo prazo, o problema se torna extremamente grave, podendo resultar em incapacitação temporária e até mesmo permanente.

Abaixo listamos algumas doenças resultantes da síndrome LER/DORT.

1. Síndrome cervical

O esforço repetitivo que muitos dentistas fazem pode iniciar uma degeneração do disco cervical.

2. Hérnia de Disco

Essa doença é muito comum e também pode atingir os dentistas que não adotam a ergonomia na odontologia. A situação ocorre pelo desgaste do disco cartilaginoso entre as vértebras; ele acaba se deslocando e pressiona os nervos, o que causa uma dor intensa.

3. Cifose

Ficar por longos períodos com a cabeça inclinada para a frente sobre o paciente faz com que surja um desvio da coluna vertebral, criando o que é popularmente chamado de corcunda.

4. Cervicobraquialgia

A Cervicobraquialgia é outra doença que causa dores devido a alguma pressão sofrida nos nervos pelo deslocamento de alguma estrutura da coluna. A dor atinge a região cervical, mas pode chegar até o braço.

5. Escoliose

A Escoliose é caracterizada pelo desvio lateral da coluna vertebral, resultando em problemas estéticos e até mesmo em comprometimento pulmonar.

Outras enfermidades

Problemas com a ergonomia na Odontologia também podem resultar em outras complicações, algumas delas bem sérias:

  • Tendinite: um tipo de inflamação que atinge os tendões;
  • Desfiladeiro torácico: essa condição causa dor nos ombros, pescoço e até perda da força dos dedos devido à compressão do plexo braquial;
  • Bursites: é uma inflamação das bursas, um pequeno saco com líquido que encontramos nos ligamentos;
  • Túnel do carpo: essa doença causa dor entre a mão e o antebraço devido a uma inflamação no nervo mediano no canal do carpo.

Como aplicar a ergonomia na Odontologia?

Ficou claro que a ergonomia na Odontologia é de suma importância. Se você ainda não sabe como aplicar as técnicas certas no seu dia a dia, veja algumas mudanças que podem ser feitas imediatamente e que vão trazer diversos benefícios futuros.

Ajuste do mocho

A cadeira de um dentista é conhecida como mocho e o profissional vai passar grande parte de sua jornada de trabalho sentado nela. Por isso, é necessário que o equipamento seja de boa qualidade, construído para ser ergonômico.

Ao adquirir a sua, você precisa ficar atento aos seguintes detalhes:

  • O mocho precisa permitir que uma pessoa com altura de 1,50 m a 1,80 m possa se sentar de forma que o fêmur fique paralelo ao chão, formando um ângulo de 90 graus com a perna, para que o sangue circule da maneira correta;
  • Escolha um modelo em que o encosto proporciona ajustes de altura e profundidade;
  • Há algumas marcas que produzem cadeiras para dentistas sem o encosto; elas costumam ser no formato de uma sela ou bola de fisioterapia. A grande vantagem é que elas estimulam o profissional a manter uma postura adequada;
  • O mocho deve possuir rodinhas e ser giratório, permitindo que o dentista se movimente e gire com facilidade quando necessário, sem precisar forçar demais qualquer músculo.

Posição da cadeira do paciente

O dentista deve posicionar a cadeira do paciente de forma que a pessoa fique com o rosto na altura de seus joelhos. Além disso, o apoio da cabeça deve ser ajustável, para permitir que o profissional consiga a melhor visão do procedimento sem a necessidade de ficar se movimentando constantemente.

A cadeira também deve ser confortável para o paciente e permitir que ele fique deitado de uma forma que não cause muitos incômodos durante o procedimento. Pois, se o paciente não estiver se sentindo bem, ele vai ficar mais inquieto, exigindo mais mobilidade do profissional e gastando mais tempo.

Tamanho e disposição do consultório

É recomendável que um consultório odontológico não tenha mais do que três metros de largura, assim todos os armários e equipamentos podem ser organizados de forma clara sem estarem distante demais do profissional.

Já os objetos que podem ser alcançados apenas esticando o braço não podem estar a uma distância superior a 1 metro, para evitar que o dentista se esforce ou se estique demais para pegá-los.

Posicionamento ergonômico ideal

O profissional deve se posicionar de forma que sua coluna fique reta e de encontro ao encosto. A cabeça deve se inclinar ligeiramente para frente para visualizar a boca do paciente.

Os pés precisam ficar totalmente apoiados no chão. Evite cruzar as pernas ou se apoiar na ponta dos pés.

Luz adequada

Quando pensamos na luz de um consultório odontológico, muitos podem pensar que isso não tem nada a ver com a ergonomia na Odontologia. Mas a iluminação influencia diretamente na atividade do dentista.

Se não houver uma iluminação adequada, o profissional vai ter que se mexer muito para encontrar a posição adequada e visualizar o ponto correto na boca do paciente, às vezes precisando se inclinar mais que o necessário. Obviamente, isso pode criar diversos problemas de saúde.

Dicas importantes para o posicionamento ergonômico

Além das dicas que já citamos aqui, como manter as coxas paralelas ao chão, manter a coluna reta e posicionar a cabeça do paciente na altura dos joelhos, há outras dicas importantes que você pode incorporar:

  • Sempre se manter a pelo menos 30 centímetros da boca do paciente;
  • Posicionar o refletor da maneira correta para evitar ter que procurar o melhor ângulo de visualização;
  • A ergonomia na Odontologia também sugere que o profissional faça pausas a cada 90 minutos de atendimento;
  • Use um sugador potente para que o paciente não precise cuspir a todo o momento, pois esse movimento faz com que o profissional tenha que se deslocar constantemente.

Como realizar adequadamente o trabalho a 4 mãos na Odontologia?

Pode-se usar o sistema International Standards Organization (ISO) e da Federação Dentária Internacional (FDI) para definir a melhor posição para o dentista e seu auxiliar durante o atendimento.

Essa definição é importante para garantir um trabalho mais organizado e saudável. Na prática, imagina-se um relógio, em que o 12 está sobre a cabeça do paciente e o 6 está aos seus pés.

Assim, os profissionais se posicionam na área restante do círculo. Geralmente, o dentista fica na posição 7, 9 ou 11 horas se for destro ou 5, 3 ou 1 hora se for canhoto. A posição final vai depender da preferência de cada um.

Por exemplo, a posição 9 horas é uma das mais usadas por permitir uma visão direta e completa da boca do paciente. Enquanto a posição 11 horas dá uma visão indireta por meio de espelhos.

Quando o dentista decide o melhor local para trabalhar, fica mais fácil definir em que posição do relógio serão posicionadas as bandejas e o auxiliar.

É esperado que o espaço de trabalho se torne mais dinâmico e que o profissional tenha todas as ferramentas à sua disposição sem precisar fazer muito esforço.

Dicas para qualidade de vida do dentista

A ergonomia na Odontologia melhora o trabalho e a qualidade de vida como um todo. Além disso, há outras coisas que o dentista pode fazer para manter a saúde em dia mesmo quando não estiver em atendimento, como se alimentar bem, fazer exercícios e dormir o suficiente.

Mas, quando for iniciar a jornada de trabalho, é importante alongar os músculos, fazer pausas programadas e evitar trabalhar em excesso.

Porém, se você está preocupado com os diversos problemas que citamos neste texto, há uma série de exercícios que ajudam a preveni-los e que são extremamente fáceis de fazer. Vamos falar mais sobre eles abaixo.

Exercícios para alongamento no dia a dia

O dentista deve alongar adequadamente as partes do corpo que são mais exigidas durante o seu trabalho. Essa atitude simples vai garantir mais mobilidade e pode evitar diversos problemas futuros.

1. Braços

Entrelace os dedos e estique os braços com as palmas das mãos viradas para fora. Primeiro, aponte para a frente do corpo, depois acima da cabeça. Segure cada posição por 30 segundos.

Estique um braço de cada vez passando-o sobre o peito e use o outro braço para melhorar o alongamento. Também segure por 30 segundos.

2. Pescoço

Para alongar o pescoço, use a mão direita para puxar a cabeça para a direita na direção do ombro. Em seguida, repita o processo do outro lado.

3. Lombar

A lombar é um local de dores frequentes entre os dentistas devido ao longo tempo sentados em posições incorretas. Para alongá-la, sente-se com as pernas alinhadas aos ombros e se incline para a frente de forma que sua barriga toque suas coxas. Quando alcançar essa posição, levante a cabeça e tente ficar assim por pelo menos 30 segundos.

4. Mãos e punhos

Estique um dos braços e use a outra mão para segurar todos os dedos e incliná-los para trás. Depois, repita o processo do outro lado. Lembre-se de tentar segurar essa posição por pelo menos 30 segundos.

Conclusão

A ergonomia na Odontologia é essencial para manter a saúde dos dentistas e não deve ser ignorada. Por isso, procure comprar materiais que foram desenvolvidos para proporcionar conforto e um menor desgaste.

Suas atitudes também são essenciais, pois a maioria das doenças por LER/DORT se desenvolvem como resultado de uma má postura e esforços repetitivos. Então, se policie e lembre-se que trabalhar da forma correta é indispensável para a boa saúde.

Além disso, um profissional que aplica as técnicas da ergonomia na Odontologia tem um rendimento muito melhor e trabalha com mais alegria e dedicação.

Foto de Samara Sampaio

O Autor

Samara Sampaio

Cirurgiã-dentista e mestre em ciências odontológicas (UNIFAL-MG). Especialista de Produtos da área de peças de mão e periféricos na Alliage.

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